domingo, 9 de janeiro de 2011

Solidão ( Que sua própria presença te seja a melhor companhia.)

...E com os pés descalços
ela sobe rumo ao topo da velha montanha.
Passo a passo o barulho da cidade vai ficando para trás.
A cada pedra e espinho que lhe acariciam as solas dos pés,
é dispensado um doce sorriso. 
A dor que parece estranha aos olhos
dos seres, para ela é sinal de satisfação.
É como se o incomodo das pedras e espinhos em seus pés lhe garantisse a certeza de que existe vida em seu corpo.
Entre árvores, folhas, plantas e insetos, o olhar para trás torna-se cada vez mais tímido.
O objetivo agora é o topo.
Em uma velha mochila, já surrada pelo tempo ela carrega pequenas coisas. 
Parte da sua história...
E então, segue obstinada em seus instintos, almejando a sombra da árvore que habita o topo da montanha.
Os pensamentos fluem em velocidade avassaladora, as lembranças se entrelaçam sem respeitar
a ordem dos seus acontecimentos e tudo parece começar a fazer sentido.
E com tudo o que se resgata nas lembranças, ela toma força na explosão de sentimentos que
manifestam as recordações, e os passos se antecipam na ânsia de alcançar o que seu íntimo almeja.
As horas vão passando lentamente. A refeição é oferecida pela própria natureza; 
o velho cantil reserva água suficiente até que se encontre uma nascente.
O cansaço começa a tomar o corpo daquela criatura. 
Também pudera; o sol já vai se escondendo e a lua toda radiante vai assumindo seu posto.
É hora de parar!
Então, ela procura abrigo na copa de uma árvore, acende uma fogueira, assim como aprendera nos filmes de aventura e dá ao seu corpo o merecido descanso.
Em tortuosos pensamentos ela acaba por adormecer. 
Despertada de um sono sem sonhos por cantos de pássaros das mais variadas espécies, ela retoma sua caminhada.
Falta pouco!
Algumas horas caminhando com os olhos voltados para o chão fez com que ela chegasse ao seu destino sem se dar conta de que havia chegado.
O sorriso lhe toma o rosto, a mochila é aconchegada na sombra da velha árvore na melhor forma para se tornar um travesseiro. 
O corpo se estende como quem implora por sossego.
A respiração se torna profunda e minuciosa, como quem degusta cada partícula do oxigênio oferecido.
A mente pouco a pouco vai se esvaziando, os olhos contemplam cada detalhe daquele lugar solitário.
E então, vê-se que ela encontrou o que tanto procurava... A VERDADEIRA SOLIDÃO!
Sua alma já não mais suportava estar rodeada por pessoas e ainda assim sentir-se só.
O barulho vazio da multidão só fazia aumentar sua dor. 
Toda movimentação lhe parecia sem sentido, todo esforço lhe parecia inútil.
Mas naquele momento sua alma respirou aliviada. O tempo conspirava em seu favor. 
A natureza delicadamente oferecia-lhe caricias, e os pássaros, a gentileza de belos cantos.
E ali ela permaneceu por incontável tempo, degustando arduamente daquela que buscava.
Aquela que realmente fazia sentido ao seu entendimento... 
No vazio da alma, no silêncio que aclama; ela encontrou:
Sua companheira  SOLIDÃO...


...Quando a dor que nos limita é a doença da alma,
mergulhamos no mais profundo isolamento social.
Nos trancamos de nós mesmos, nos escondemos de nossas fraquezas
e o barulho se torna insuportável.
Mas o silêncio também atordoa.
Entramos em processo de autodestruição involuntária.
Nossos sonhos são sufocados por pensamentos pessimistas,
o sorriso toma forma contrária em nossos rostos, à ponto de afastar a mais paciente das criaturas.
O convívio se torna tão insuportável, que conseguimos afastar-nos de nós mesmos.
Daí então, percebe-se que o maior inimigo é o próprio "eu".
A primeira reconciliação a ser feita, é consigo mesmo.
Ao passo que se permite ser sua própria companhia, reconstroem-se os laços com os sonhos,
e a maior luta passa a ser não mais com o sentir-se só em meio à multidão,
e sim, com o sentir-se mau acompanhado estando consigo mesmo.
Que sua própria presença te seja a melhor companhia!




A.P.

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